Torto Arado | Itamar Vieira Junior

Duas irmãs gémeas sofrem um acidente com uma faca que lhes parece dotada de vontade própria, ficando ainda mais ligadas uma à outra: a que perdeu a língua tem agora na irmã a sua voz. São quem dá corpo à narrativa; entre as duas, é-nos dado a conhecer a vida de Água Negra. O povo habita dentro dos limites da roça e, supostamente livres, dão a sua força de trabalho em troca de morada. Não existe retribuição monetária, apenas o direito a permanecer sem ser importunado, correspondendo com obediência e trabalho.

 

Só lhes é permitido erguer morada de matope, a alvenaria está interdita. Cultivam um pouco de terra à volta das suas casas e pescam no rio às escondidas. Vamos conhecendo a luta pelo direito do povo índio à terra e, mais tarde, pelos direitos dos descendentes dos escravos. Zeca Chapéu Grande é o patriarca detentor de artes mágicas, capaz de curar os desconectados da vida e líder espiritual, ponte entre o capataz e as desavenças do seu povo. Um mundo estranho e mágico para quem não tenha vivência naquelas paragens. Do realismo cru e duro da vida da roça, da pobreza extrema, ergue-se um mundo de poderes mágicos e de encantamento, lembrando o universo de Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão. Mas só nos sonhos a escrita abandona o chão duro que os escravos pisam para se entregar a uma dimensão mágica e, nisso, difere da escrita de Márquez.

Nessa extrema pobreza, o povo encontra momentos de alegria e contentamento, de dor e desespero, como se quase tudo lhes fosse permitido, e entre as proibições dos senhores da terra e os interditos do Jaré existisse espaço para suportar com passividade tanta miséria. Como tudo isso é possível, nem Deus sabe explicar. Os escravos são o povo que não sabendo o caminho de volta para a sua terra, foi ficando.

Quando em toda a vida não se foi dono de nada, em alguma dimensão se projetam as forças e a esperança; nasce assim um mundo real e encantado que está vedado aos senhores da terra, aos que não sejam daqueles costumes. Um novo arrebatamento surgiu da terra quando esta cuspiu a pedra brilhante e os homens cederam ao seu feitiço. A febre do diamante devassa aquelas terras como a fome em anos de seca. O povo de Água Negra resiste, indiferente ao tempo que caminha, indomável como um cavalo bravio. O que perde o homem pobre que não seja a sua crença e a sua honra, enquanto, atentos, os senhores da terra mandam vigiar? Desse povo, perdeu-se a memória. Torto Arado é o seu testemunho, escutai.

Queria experimentar a vida, para ver o que poderia nos acontecer.

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