As Longas Noites de Caxias | Ana Cristina Silva

Este é um livro de silêncios: o do povo que se cala, vergado ao trabalho à jorna, sem direitos e sem voz, feito para trabalhar e obedecer; do silêncio cobarde que se cala perante as injustiças; e do silêncio coragem que não denuncia os camaradas. O silêncio força que este livro agora rompe, perturbando-o de forma definitiva. Entre algozes e vítimas, duas mulheres dominam este romance. Sem elas, um pedaço fundamental da história de Portugal permaneceria por explorar.

 

É preciso conhecer estas mulheres, o meio pobre onde nasceram, o ambiente familiar que lhes moldou os sonhos e a noção de futuro. Num tempo em que a boa educação se fazia de castigos corporais, na escola e em casa, em que o marido impunha a sua razão pela força e aos mais fracos cabia obedecer e portar-se bem. Se um estalo ou uma reguada moldavam o bom carácter, por que não havia a polícia de aplicar essa pedagogia aos adultos tresmalhados, aos que insistiam em explorar os assuntos proibidos, aos que colocavam em causa o bem estar da pátria? Leninha foi agente da PIDE. Em Caxias, optava pelos turnos da noite que lhe permitiam estar mais à vontade para torturar as prisioneiras. Levá-las a falar, mais pelo medo do que pela dor. Marcá-las com a humilhação que nunca cicatriza. Laura Branco foi a jovem universitária que lhe caiu nas mãos e aguentou a tortura do sono, os simulacros de afogamento, o espancamento. A que não falou. Mais do que o silêncio, foi a supressão das palavras que a podiam libertar, condenando outros. O corpo do torturado contém a sua própria queda e a sua própria escuridão.

Ana Cristina Silva dá-nos a conhecer estas duas mulheres, cada uma a seu tempo; só mergulhamos na infância de Leninha depois de a conhecermos como torturadora e de nos convencermos que nada desculpará esta mulher, de que nada justificará o nascimento de um monstro. E, depois, percebemos que esse monstro sempre existiu, espreita por detrás da pobreza, da fome, da dignidade surripiada e da falta de esperança. Cresce porque se agarra ao pouco que nos é dado a acreditar. Leninha, perante um pai violento e uma mãe submissa, toma partido do primeiro, afinal se a mãe cumprisse com o que lhe era exigido não apanhava do marido. Leninha cresceu e viveu uma vida amargurada, os momentos de maior felicidade encontrou-os nas longas noites de Caxias. Depois da revolução, regressa a Caxias como reclusa e aí, entre as colegas igualmente detidas, volta a ser a chefe de Brigada.

Ana Cristina Silva, com a mestria com que nos habituou, confere uma profundidade sofrida às personagens e não cede à tentação maniqueísta de nos oferecer um romance a duas cores, abrindo ao leitor uma palete de emoções, culpas e convicções que são um tributo vivo aos homens e mulheres que, pelas suas ideias e apego à liberdade, foram torturados às mãos dos algozes da PIDE e, mesmo sobrevivendo, nunca o superaram definitivamente. Constatar como tudo foi possível, alerta-nos para a evidência de que o monstro voltará a erguer-se se baixarmos a guarda, se depois da História, soçobramos ao silêncio que se acomoda.

Laura virou a cabeça e, sem dizer nada, olhou o inspector de relance. Aquele silêncio era uma atitude definitiva e teve a sensação de que Óscar Cardoso o compreendeu. No dia seguinte, devolveram-na ao Reduto Norte.

sobre o livro   citação   texto publicado em Justiça com A