Persona | Eduardo Pitta

Três episódios da vida de Afonso marcam o percurso iniciático possível a uma escassa minoria branca, letrada e viajada. Falamos de Lourenço Marques à época colonial. Os happy few, frequentadores da África do Sul e da Europa, conhecedores de outros ventos onde despontam livros e ideias interditas, essa elite alfabetizada, frequentadora de tertúlias, festas e ambientes exclusivos, vivia uma realidade que, para alguém como eu, largas centenas de quilómetros mais a norte, em Quelimane, era impossível de conceber.

 

A consciência do que em 1973 começava a despontar, nunca chegou à minha família, para quem o Estado e a Igreja não se discutiam e, pela Graça de Deus, estávamos em boas mãos, apesar dos perigos que se sabiam cada vez menos lá longe.

A descoberta da sexualidade de Afonso não se transforma numa incursão erótica que bem podia escandalizar os bons costumes da época. A contenção da linguagem de Eduardo Pitta, a elegância da escrita e a sua economia, fazem emergir uma sociedade recalcada, pouco esclarecida e, sobretudo, fragilizada pela moralidade que sempre agrilhoou o pensamento português. A escola e o exército eram as grandes educadoras da vida, na primeira aprendia-se a ler e, com sorte, tirava-se uma boa 4ª classe, na segunda faziam-se homens. Daí o susto do chefe da PM ao ver os “segredos de Estado” em mãos pouco idóneas, em quem, nem a tropa cumpria o papel de incutir os valores tradicionais de uma sociedade sem equívocos. O que o inimigo iria pensar se descobrisse? Depois da desastrada estratégia de Kaúlza de Arriaga, na operação Nó Górdio que, falhando erradicar a atividade da Frelimo, a projetou para sul, até à zona de Tete, o regime colonial português sofria agora a sua maior ameaça: o escândalo dos militares homossexuais! Algo criado pela própria instituição ao violar a correspondência alheia. O insólito processo foi encerrado à boa maneira portuguesa: nunca existiu.

Vejamos como Eduardo Pitta nos lança no epicentro dos acontecimentos, sem explicações ou introitos, iniciando assim o primeiro conto: A campainha retiniu com força e Afonso deixou-se ir na enxurrada. Matemática ia ser uma chatice… Com uma depurada economia de escrita, ficamos com a imagem de um adolescente, nada formatado e pouco empenhado nos estudos, deixando-se arrastar pelas obrigações que o tornam invisível. O ambiente do liceu da nossa juventude explode na nossa mente. Podemos ter esquecido o nome dos colegas, dos professores, mas o som da campainha ainda hoje nos acertaria o ritmo. Certos preconceitos também, com igual força.

A passagem à maturidade tem esse constante descortinar do instituído, do que as instituições esperam de nós – família, escola, exército ou outras de cariz menos orgânico. O fim da inocência coincide com o momento em que essas referências começam a ruir. Aqui, todo um império colapsou. Imperdível.

A linguagem coloquial utilizada por adolescentes e soldados pretende reflectir o imaginário masculino em ambiente escolar ou de guerra. É pela licença de tal linguagem que uns e outros se distinguem do Frei Luís de Sousa. (da nota de abertura)

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