Minas do Leão | José Eron Nunes

A pegada ecológica é uma das preocupações dos dias de hoje, como se o mundo se extinguisse connosco e tudo o que sai da mão do homem fosse derradeiro, definitivo e irreversível. Ao ler este livro de José Eron, sobre a realidade das minas do Leão, percebemos como o tempo passa por nós indiferente às nossas urgências.

 

As principais cidades do Brasil do início do século XIX tinham acesso ao mar, o que facilitava o seu abastecimento de carvão britânico. Qualquer exploração mineira no interior, era penalizada pelas dificuldades de escoamento e pelo descrédito natural sobre a sua qualidade. Para muitos especialistas, o carvão brasileiro era de baixo valor energético e não servia para abastecer a marinha de guerra nacional. Vicissitudes políticas ditam os trâmites da avaliação do potencial combustível atribuído ao carvão brasileiro. A eterna crença na superioridade da avaliação estrangeira, permeável a interesses comerciais alheios ao país, ditam a sua sorte. Apesar da exploração mineira ter começado oficialmente em 1853, só em 1872 surge uma grande empresa com autorização imperial, marcando o início oficial da indústria carbonífera organizada no Brasil. A empresa, com capital inglês, foi registada com nome: The Imperial Brazilian Collieries C. Limited. Seria preciso esperar quase uma década para encontramos os primeiros nomes nacionais à frente desta indústria.

Com a implantação da República, em 1889, a situação não sofre grande alteração. Esse seria o papel da I Guerra Mundial que, ao paralisar grande parte do tráfego marítimo, obrigou o Brasil a voltar-se para a sua indústria carbonífera. Apesar desta revitalização, só em 1943, o presidente Getúlio Vargas, com a Consolidação das Leis de Trabalho, confere alguma proteção aos trabalhadores mineiros, estabelecendo mesmo uma faixa etária para o trabalho nas minas: dos 21 aos 50 anos. Com o fim da II Guerra Mundial, os mineiros organizam-se, apresentam um caderno reivindicativo, chegando mesmo a partir para a greve. Lenta é a evolução social nesta indústria.

Em 1949, outro combustível fóssil entraria no processo concorrencial com o carvão, o gasóleo apresentava preços competitivos chamando a si uma cota significativa de mercado. Os ciclos económicos deixam sobre a região carbonífera uma pegada que se estende para além dos equipamentos industriais e das construções que abrigaram e serviram de suporte aos trabalhadores mineiros. São esses ciclos que marcam o destino dos homens e mulheres e das cidades que construíram. Conhecer a sua história é prestar-lhes um tributo e recordar que nem só da força do trabalho se ergue o futuro. As aspirações dos homens são frágeis, só o grande capital tem a força de traçar caminhos que, todos nós, somos forçados a percorrer.

 

Minas do Leão – Das entranhas da Terra, de José Eron Nunes, 2018, Editora Metamorfose, Brasil.

Nota: conheci o José Eron num encontro do EC.ON, promovido pelo Luís Carmelo, quando ainda funcionava em Évora. Fomos mantendo um contacto esporádico.