O Outro Lado do Reflexo | Adelina Barradas de Oliveira

Escreve para mim, solicita a voz anónima de forma insistente, é um eco instalado na consciência. Escrever sem pensar, como quem desabafa. E o que pode escrever uma agente da justiça, alguém que, estando no topo do processo, é o seu decisor último? Tem esse agente direito à opinião, a colocar no papel as suas emoções quando as teve de apartar do processo de decisão que foi fazer justiça? Que fio condutor torna isso possível?

 

Não existe mundo mais abrangente do que o da Justiça, onde todos cabem por igual, todas as histórias e heróis inventados ou os que se inventam a si próprios, mais o desejo da apagar o mal e restabelecer a inocência, porque o processo tem esse lado regenerador. Vive da esperança para a qual se procuram protagonistas. Escreve, escreve para mim, pede mais uma vez a voz anónima, sem rosto, porque o contador de histórias não vê rostos, é tão cego quanto a Justiça o deve ser. Bastará dar voz às vítimas? Acreditar nelas? Será a Justiça um exercício de boas intenções que partilha com a origem divina das religiões a crença laica na unidade do género humano, a paz universal, a harmonia entre a ciência e a religião, bem como a igualdade de direitos entre o homem e a mulher? Enquanto réu, o homem atinge a sua condição de maior fragilidade, sujeito a confiar na Justiça para que proteja os seus direitos e, caso o mereça, lhe devolva a dignidade sem um período de reparação. São os palcos de encenação para onde remete José Luís Outono, autor do prefácio, quando fala das cumplicidades orquestradas na batuta destemida do maestro da razão.

Quantas vezes, a consciência nos é ditada como a voz de uma terceira pessoa, do próximo? O pedido que se repete ao longo do livro, incitando à escrita, junta a primeira e a terceira pessoa, fundido o eu da autora com a profissional que aplica a Lei já despida de toda a sua análise, de toda a ponderação. Porque certas histórias têm de ser contadas no seu lado mais tangível, no que vai para além da lentidão processual que deixa as vítimas desprotegidas ou do desleixo na preparação do processo em fase de inquérito e que penaliza os inocentes. A Justiça obriga a ver por cima de tudo isso, a julgar o caso concreto e desconsiderar o papel social que as circunstâncias da vida reservaram ao réu. E quando a justiça é servida, mesmo assim, aceitar o recurso porque não há direito que perturbe um juiz.

Adelina Barradas de Oliveira oferece-nos aqui um fresco do seu métier de fazer Justiça, num país de gritantes desigualdades, onde nem todos chegam da mesma forma a uma sala de audiências e compete ao juiz, o seu último elo, a responsabilidade de garantir equidade no momento de decidir. Não é um exercício académico, porque tal como refere, nenhum conhecimento precede em nós a experiência. Os capítulos abrem com ilustrações de Isabel Almeida que, junto com o título, pontuam a história que encabeçam; mais do que ilustrar, interpretam.

O outro lado do reflexo é a narração possível de tantos rostos, tantas vozes, tantos olhares, tantas vivências dentro de uma sala de audiências… faz-nos bem a sua leitura, faz-nos sentir o rosto humano da Justiça.

sobre o livro