Mares Encrespados | José Luís Outono

Entre a prosa mais formal, onde o pensamento se reclina, e a desorganização do poema, existe uma escrita de ideias onde despontam palavras como: ética, rebelião e silêncio. Palavras às quais se junta o sentido de humor: -Quem não deve não teme. –Quem deve também não. Teatralizar o nosso tempo e marcar o olhar contemporâneo de quem, de tanto viver, viu chegar o hábito de tomar café com canela. Nestas linhas advinha-se um país que arrumou o futuro na pasta dos pendentes. O leitor percebe, desde o início, que a musa inspiradora deste poeta é uma realidade complexa que ultrapassa a simplicidade da poesia que se encerra em estados de alma do autor.

 

O ofício do poeta é despir as palavras e deixar às vozes o fato e a gravata das intenções dissimuladas. Cabe neste espaço poético um inconformismo político que não se confunde com alinhamento ideológico e resulta de uma consciência profunda e amadurecida. Uma crítica ao formalismo que encena o rigor e a isenção com que o Estado se deve reger e, tantas vezes, devido a uma imprecisão tecnicista, se transforma em leito de interesses comuns.

O mar, tão recorrente na poesia de José Luís Outono, já não é mais o espaço onde o olhar se perde, mas corpo tangível de uma visão inconformada, feita de interrogação constante, onde cada um de nós, em silêncio, divaga ou sonha. Somos o rumor de multidões inquietas mas, cuidado, o que fica por dizer são fogos que secam nascentes.

Na dubiez da palavra escrita, a coerência é o refúgio seguro do poeta, a lucidez inquieta que desencanta a pressuposta serpente que habita no ardil das paginações de encantar. Esta é uma escrita, por vezes dura, mas que nunca abandona a ressonância poética do não dito, do que, não estando escrito, se revela no ato de ler. Para leitores que desejem lançar-se ao desengano.

Até os vulcões têm cuidado com as fissuras do seu romper!

Esta recensão saiu na Justiça com A.