A manhã tinha um tom doce a descer sobre as ruas, um tom a descair displicentemente, a entornar-se como líquido peganhento e grosso.

 

Com uma das mãos a reter os cabelos, tirou depressa a outra da frescura dos dedos dele: uns dedos esguios, nervosos, trémulos, e ficou-se a olhá-lo, admirada, a chávena de café meio vazia sobre a pequena mesa à sua frente. E ele de pé, com aqueles olhos assustados e grandes a devorarem-lhe o rosto e um sorriso a cortar-lhe a boca com dificuldade, um sorriso a esforçar-se por ter uma aparência de sorriso convincente, mas a desfazer-se à medida que era construído.

Quotidiano Instável – Crónicas (1968-1972), Maria Teresa Horta, D. Quixote, 2019

 sobre o livro