O Milagre Espinosa | Frédéric Lenoir

A superstição não existiria se o destino nos fosse sempre favorável, defende Baruch Espinosa, filósofo que viveu no século XVII. A originalidade luminosa do seu pensamento precedeu em muito a modernidade em que se alicerça o pensamento contemporâneo.

 

Frédéric Lenoir descodifica o pensamento escrito de Espinosa, numa linguagem acessível aos leigos em filosofia e ajuda o leitor a perceber como se pode falar de Deus, pensar em Deus e simultaneamente retirar ao homem o livre arbítrio, reduzindo-o à sua natureza singular, destituído do papel de eterno eleito das graças divinas. Este homem revelado por Espinosa é uma parte da Natureza e obedece às leis naturais dos seres vivos. Da mesma forma que não se pode odiar um sismo pois sabemos ser resultado de causas naturais, também não podemos odiar o homem pelas suas falhas, uma vez que à luz da razão tudo acaba por se justificar. Espinosa advoga que à reação emocional aos acontecimentos se deve opor a sua compreensão. O conhecimento liberta o homem das causas exteriores que o oprimem.

As suas ideias sobre Deus, o papel dos profetas na revelação das leis eternas de Deus, o lugar do homem e a leitura que dedicou aos textos sagrados, levaram à sua expulsão da comunidade judaica, a ser odiado pelos cristãos e afastado por muitos dos seus seguidores, tendo sido classificado como pernicioso e ímpio mestre. A comunidade judaica não lhe perdoou ter trocado o conceito de povo eleito de Deus por algo coletivo, temporal e provisório, defendendo que o prometido aos patriarcas foi uma nação poderosa em troca da obediência à Lei e a sua ruína em caso de quebra do pacto. Desse modo, a destruição do estado teocrático de Israel, ocorrida há mais de 2.500 anos, tornou caduco o pacto então celebrado, dispensando os judeus da sua obediência. Reconhece a Cristo ser a Voz direta de Deus, mas rejeita a sua condição divina. Contudo, a sua vida simples e regrada, a justeza dos princípios com que se regia, granjeou-lhe o respeito dos seus opositores.

A sua visão da sociedade leva-o a reconhecer a eficácia da democracia face à natureza humana, o regime que tem mais hipóteses de correr bem, e é precursor na defesa da separação entre o poder político e o religioso. Espinosa compreende que enquanto os homens forem escravos das suas paixões, obedecerão à lei mais por medo da punição do que por adesão profunda aos princípios em que ela assenta.

Ao defender que o ser humano não está na Natureza como um império num império, Espinosa estende a sua modernidade até aos dias de hoje, onde as preocupações com a sustentabilidade do planeta lhe dão razão. Frédéric Lenoir propôs-se revelar uma filosofia para iluminar a nossa vida e esse objetivo foi amplamente alcançado neste livro de leitura arrebatadora.

Enquanto respeitarmos a lei da cidade apenas por medo da punição e não por convicção profunda da sua justeza, as nossas sociedades serão frágeis.

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