Tríptico da Salvação | Mário Cláudio   

Tal como o título indica, na trama deste livro existe uma obra de arte sacra, um tríptico, representando a Paixão de Cristo. Na tábua central a Crucifixão e nas laterais a Deposição e a Ressurreição.

 

Uma obra destinada a ser um testemunho de fé e de remissão das humanas falhas e mortificações de quem disponha dos cabedais para a encomendar. E quem manifestou esse desejo, foi um bem sucedido homem de leis com o propósito de doar o tríptico à igreja onde foi batizado. Acontece que o causídico tinha ao seu serviço um amanuense que se enamorou do seu modo de viver e lhe cobiçava os bens materiais, dos quais se apropriou, após um bem sucedido plano para assassinar o seu amo.

Aos bens materiais de que se assenhoreou o amanuense acrescentou a promessa da encomenda do tríptico, no qual se faria representar, a si e à sua mulher, junto das figuras sagradas que assistiram Cristo na sua Paixão. A realização do tríptico consumaria a comunhão perfeita com o seu amo, na prossecução de que, ao alcançar o mestre, o discípulo finalmente se liberta. Para o efeito decide encomendar a obra a um consagrado pintor e não se deixou intimidar pelo facto deste ser amigo do reformista Martim Lutero.

No seu propósito de supervisionar todas as fases da execução da encomenda, desde o preparado das tintas até à composição do tema, faz-se amigo do jovem aprendiz que serve no atelier do mestre e que se revelará ser seu filho enjeitado.

Duas figuras menores, o amanuense e o aprendiz, cuidam de um sonho que não lhes pertence. O amanuense, ciente de que o Eterno se alcança a partir dos ingredientes terrenos e à custa de muita sabedoria, cuida de aprender o segredo dos azuis mais duradouros e da melhor forma de cuidar as madeiras que darão corpo às três tábuas articuladas. As materialidades começam então a contaminar o seu espírito com nuvens negras.

A execução do tríptico torna-se uma obsessão e motivo de troça de quem lhe conhece o propósito e de desconfiança por parte da sua prole que receia pelo pecúlio que lhes caberá em herança.

O projeto do tríptico, enquanto objeto de cobiça e posse, surge esquivo e difícil de alcançar, sofrendo paragens na sua execução e até mesmo chegando a ser dado como perdido. O desejo e a incunbência da sua realização passam de herdeiro em herdeiro,  primeiro de amo para o amanuense, depois de marido para mulher e de mãe para filho, levando o leitor a duvidar se o seu propósito de testemunho de fé alguma vez será cumprindo. Quando, pela ação humana, a cobiça se sobrepõe à bondade do projeto inicial, o tríptico transforma-se numa descida aos Infernos, negando assim a sua própria mensagem de fé e salvação.

Numa época de conflito religioso entre papistas e reformistas, o amanuense escolhe um pintor próximo das teses reformistas e anfitrião ocasional de Martim Lutero, figura que reprova a representação pictórica das passagens bíblicas. Isto, se não tivermos em conta que as santas figuras são desenhadas tomando como modelo as rameiras que serviam os prazeres carnais do mestre ou cadáveres resgatados à morgue (no caso dos cadáveres interessam os que tenham sofrido uma morte violenta, preferencialmente os enforcados, em cujo rosto o sofrimento fica mais vincado. Dos conflitos entre reformistas e papistas, a acreditar neste romance, há quem faça fortuna, tal como no comércio das relíquias, atestando que, na economia religiosa, nem só o clero beneficia da universal generosidade divina. O aprendiz que serve o mestre no seu atelier é um dos personagens que, tal como o tríptico, sobrevive durante todo o livro sem contudo alterar a sua humilde condição. Quem cobiça as amenidades do amo, cumprirá para sempre a sina de serventuário, explorado pelo pai e mais tarde pelo irmão.

Na sua narrativa, Mário Cláudio recorre com intrepidez a palavras incomuns e que encaixam na perfeição, conferindo à escrita uma harmonia, um finíssimo humor e uma força que deliciam o leitor mais exigente. Quantas vezes se regressa à mesma frase pelo puro deleite de a reler. 

Observador atento da realidade envolvente, tira partido dos elementos figurativos como no caso do cão Nestor que desempenha, no contexto da trama, um papel de ligação importante, ou da rameira reconhecida por um dos seus clientes a partir da memória que este guarda de uma das santas figuras representadas numa das obras do mestre. Mário Cláudio contamina desse modo a representação do sagrado com a mais comum das mundividências.

Tríptico da Salvação é uma bem conseguida alegoria do desejo de salvação do homem pela via mais fácil, a da caridade que se consegue dispensando uns trocados e da qual se faz pública notoriedade para a satisfação do ego.

Existe aqui uma feliz coincidência, inteiramente mérito do autor, a de no ano em que Mário Cláudio celebra os seus 50 anos de escrita, o Festival Literário de Fátima, Tábula Rasa, atribuir o prémio de melhor obra de ficção ao seu romance Tríptico da Salvação. 


(texto lido na atribuição do prémio “melhor obra de ficção 2018-2019” da terceira edição do Festival Literário de Fátima, Tabula Rasa)
sobre o livro