Palomar | Italo Calvino

Este é um livro sobre a atitude a ter perante os insondáveis mistérios do Universo, a postura de quem observa sem contemplar, sem aprofundar para além do visível, numa contenção sábia que domina as emoções. Em tudo existe um mecanismo elementar, e nisso reside a chave para dominar a complexidade do mundo: ater-se ao que se vê.

 

Aparentemente, o senhor Palomar dedica-se ociosamente à futilidade do ato de observar sem contemplar, espreitar sem se fazer notar, numa atitude de asceta que reflete sobre a natureza do que nos envolve, sem procurar alterar nada. Uma cultura que se revela não ser minimalista: a curiosidade, mesmo quando se satisfaz com a superfície das coisas, aporta um rasgo cultural e de reflexão ao qual o leitor não permanece imune. Aliás, a sedução do leitor parece ser um dos objetivos não confessados desta escrita.

Os órfãos de mitologia são inseguros e quando pela noite observam os céus, insistem em nomear as estrelas como o fazem com os objetos concretos do dia-a-dia. É essa tranquilidade que procuram. A superfície das coisas é inesgotável, para quê então aventurarmo-nos com o que está por baixo? O conforto do olhar sobrepõe-se ao esforço da contemplação. Quem observa o nascer da lua, uma osga na parede ou um bando de estorninhos em voo, encontra-se perante situações que não lhe oferecem qualquer trégua. No reptário, ao deparar-se com a atmosfera pesada e nauseabunda da sala das iguanas, num ambiente pré-diluviano que antecede o homem, Palomar interroga-se: serão estas as sensações de quem se debruça para fora do humano? O leitor é arrastado para a consciência desta aventura: Palomar observa de forma leve, mas curiosa e o leitor, cúmplice, observa-o na sua demanda. Existem olhares assim, ressoam em palavras escritas num registo poético e sábio de quem encontra nas coisas simples e familiares uma manifestação dos insondáveis mistérios do Universo.

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