Rimbaud, o viajante e o seu inferno | Ana Cristina Silva

Todo o viajante é uma paisagem, nele convergem momentos felizes dilacerados por outros habitados pela sombra humana. Ao procurar libertar-se da mãe e do seu mundo burguês, menor e concreto, Rimbaud mergulha num calvário ponteado por desvarios que não consegue controlar. Quem desce às profundezas da voz humana e projeta metáforas a partir de figuras de delírio pode nunca  perceber que, no limite, a renúncia à escrita é o seu maior inferno. O eterno viajante raramente se transforma em peregrino, é alguém que parte em busca de um certo equilíbrio para o qual não encontra palavras esclarecedoras.

 

Jovem prodígio – Já na altura tinha a presunção de conseguir transpor para verso o sussurro com que os ventos fecundam o ar.-, Arthur nunca se enquadrou na sua aldeia, na família e muito menos na disciplina férrea e seca da mãe, a quem acabava por recorrer nos momentos de maior aflição financeira. Sem nunca lhe ter conhecido o colo, regressava sempre que precisava de cuidados.

Os seus versos despertavam nos outros a expectativa de um jovem luminoso, o que contrastava com a figura rude e de fracas maneiras, onde despontava uma voz monossilábica a que só a ira e o escárnio conseguiam emprestar uma força viperina; em particular quando confrontava os seus pares com a mediocridade das respetivas escritas. Essa atitude condenou-o a uma vida de isolamento, provação, vergonha e fome. Contudo, esse desapego às comodidades e vivências burguesas, contrastava como o manifesto desejo de ser reconhecido pelos seus pares; acreditava dessa forma alcançar a plenitude.

Ana Cristina Silva dá corpo à voz interior dos seus personagens, descendo a territórios perigosos como a ambiguidade sexual do poeta. Um narrador omnisciente abre cada capítulo para depois o entregar ao turbilhão interior dos personagens que habitam a vida de Rimbaud.Numa prosa romanceada mas contida nas metáforas, a autora envolve-nos na atmosfera e ambientes por onde o poeta se moveu, por vezes, com imagens de cortante realismo. A leitura, essa alimenta-se da dor que foi expulsando o poeta da sua vida.

Os versos revezavam-se uns aos outros, numa corrente ininterrupta, mas não eram para ser ditos. Serviam para o substituir, no corpo e na alma. Arthur passava a ser os próprios nomes com que tapava a boca e a língua de sua mãe.

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