Sem Nunca Chegar ao Cimo | Paolo Cognetti

O peregrino tem um objetivo a alcançar, um ponto de chegada bem definido que lhe confere sentido físico e espiritual à caminhada. O caminhante estabelece uma relação com o caminho, não pretende conquistar, mas ser acolhido, não pretende alcançar o cimo como metáfora de uma ascensão espiritual. Os monges circundam a base das montanhas sem nunca as escalar, o caminho da sabedoria não tem princípio e, seguramente, não tem um fim.

 

Caminhar reduzia a vida ao essencial: comida, sono, encontros, pensamentos. Toda a escalada é um esforço individual, o isolamento do homem na montanha e, se formos afortunados, podemos partilhar essa solidão com os nossos companheiros. Paolo Cognetti leva consigo as memórias de Peter em livro, uma narrativa que o inspirou. Não procura repetir a viagem de Peter mas compreendê-la, estabelecer um diálogo com o seu antecessor, confirmar que certas paragens estão protegidas da erosão evolutiva dos tempos e que a força dos mantras é intemporal. Amar a montanha é perceber que ela não é só a fonte dos rios, mas a própria origem do mundo; só o caminheiro percebe essa crença budista. 

Quem relê um livro amado, bate à porta de um velho amigo. Se Peter era martirizado pelas suas vertigens, Paolo é castigado pelo demónio das alturas, uma forte indisposição resultado do oxigênio rarefeito, provação que só encontra par na degustação do chá nauseabundo de manteiga de iaque.

A certas altitudes o viajante deve seguir o ciclo da água que se detém durante a noite para retomar o seu curso pela manhã. Numa escrita suave, bafejada pelo talento da simplicidade, Paolo Cognetti partilha connosco esta aventura e ensina-nos que o viajante não descobre de si mais do que está disposto deixar à sua passagem e que muito mais precioso do que o cume é o caminho até ele.

O vento não se veria se não existisse nada a flutuar nele: as bandeiras tornam visível o invisível. E os abutres-barbudos e os grifos que planavam, com as asas abertas e imóveis, eram sacerdotes do ar.

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