Augustus | John Williams

O autor mergulha na Roma antiga, do início da nossa época, para nos oferecer um romance histórico alicerçado no relato personalizado dos seus personagens, cuja voz explora conferindo-lhes uma identidade própria. Sobre o manancial de figuras históricas que o período oferece, John Williams tece, ardilosamente, a trama que dá corpo ao romance. Contudo, na abertura do livro, o tom coloquial da carta de Júlio César a Ácia é pouco credível.

Nessa mesma carta e a propósito de uma má notícia que transmite à sobrinha, Júlio César acaba por revelar a sua estratégia para se tornar ditador vitalício. Embora isso seja um facto histórico ao alcance do conhecimento do leitor, a sua revelação numa carta é pouco credível. 

A opção pelas cartas permite ao autor enumerar os acontecimentos de forma exaustiva, adensando a narrativa, abrindo-se a constantes flashbacks que enquadram os personagens no seu tempo histórico e nas pequenas intrigas e jogos de poder típicos de quem pretendia estar próximo do senado, do Cônsul e da distribuição de benesses. Um diálogo dentro de monólogos, alterna os personagens sucessivamente.

Ciente de que o sabor do tempo não se resume a uma criteriosa escolha da adjetivação, o autor mantém um discurso contemporâneo, onde o timbre de cada personagem sobressai, desfazendo rapidamente o mau começo da carta de César. Curioso que, logo no início, o autor assente a sua própria métrica: Como sabes, muito já foi dito sobre aqueles olhos, as mais das vezes em má métrica e pior prosa; penso que já deves estar farto de ouvir as metáforas e coisas que tais a descrevê-los, embora possa ter sentido vaidade neles em certa altura.

Os relatos dos saraus políticos, infidelidades, pedidos de ajuda e festas próprias de tempos relapsos, convocam aquela época através dos cidadãos que ficaram para a história e outros, agora inventados. Tempos em que a sorte dos notáveis de Roma podia variar bruscamente, induzindo-os a proteger, mais facilmente, os interesses da prole do que a honra de maridos ofendidos; como o anfitrião de certa festa, tolerando os avanços do imperador Octávio sobre a sua jovem e grávida esposa. O relato em forma de carta, agnóstico e blindado ao julgamento moral do autor, faz desta obra um aclamado romance histórico.

A verdade de um romance histórico será sempre a verdade ficcionada, pois como diz o autor: nenhum homem pode escrever um bom poema sobre um assunto de cuja validade duvide

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