Quem disser o contrário é porque tem razão | Mário de Carvalho

Mário de Carvalho, nome consagrado nas letras portuguesas, conto e romance, decide-se por esta irrequietude lúdica e didática: escrever um Guia Prático de Escrita de Ficção.

Num registo humorado, aborda o tema de forma assertiva. O guia estrutura-se em seis pontos nos quais o autor vai alertando para os vícios e falhas mais comuns do aprendiz da escrita ficcional, bem como vai apontando caminhos, citando autores falecidos ou consagrados para não perturbar a suscetibilidade dos vivos que deem pela sua ausência.

Sendo impossível abordar toda a riqueza deste manual, optei por destacar algumas das considerações do autor, na esperança de abrir o apetite para a sua leitura. Dando largas à minha preferência começo pelo alerta para a escrita que se esgota no seu tempo, que recorre a frases feitas que dispensam a reflexão. A metáfora apêndice, que se pendura no fim de uma frase a partir de um “como”, a impedir que o texto respire. O aforismo redutor, a metáfora justificativa sem qualquer efeito didático, são algumas das armadilhas que o novel escritor deve evitar. Não se intimide o aprendiz com a dimensão da tarefa, o autor deste guia prático, também tem os seus momentos de menor vigilância. Sobre as narrativas que se baseiam em histórias simples, do género contos de fadas, alerta: Faltam elementos complicativos que ocultem uma estrutura à mostra, como os andaimes dum prédio que ficassem exposto depois de um restauro. A famigerada metáfora símil, precedida por um “como” a fechar uma imagem. E, no entanto, quem sabe está autorizado a pisar a relva.

O que suporta a narrativa? O primado da ação ou do personagem? A história ou a ideia de um leitor que se pretende entreter? O autor não se deve conformar com essa estreiteza de pontos de vista, lance-se na irrequietude lúdica e crie o seu próprio leitor, um que o mereça. E lembre-se, no domínio da ficção é o que podia ter acontecido e não o que aconteceu.

Sobre a necessidade da planificação da escrita, Mário Carvalho deixa-nos algumas pistas, recordando com ironia, que a improvisação é excelente para os rouxinóis. Nada fica ao acaso, sinopse, prefácio, posfácio, lombada, capa, frase promocional e frase de abertura do romance, tudo merece a atenção de quem tem muitos anos do métier da escrita.  Os romances das pequenas letras, para edificação do candidato a escritor, também são abordados sem qualquer preconceito.

 Sem querer esvaziar o mar à colherada, a água nem deu para meio balde, confessa o autor na nota prévia. Não desanime o leitor, e se pretende lançar-se no domínio da escrita ficcional não deixe de ler este livro. E se no fim discordar, faça a contraprova: leia, leia muito.

Sobre a literatura abunda a frase feita. Em uma espécie de poder atractivo de para-raios. A todo o propósito, vemos gente a perorar sobre o assunto à solta, sem a menor reflexão, com o mesmo à-vontade com que o rei Artur de Mark Twain discorria sobre a árvore das cebolas.

Quem disser o contrário é porque tem razão, de Mário de Carvalho, Porto Editora, 2014.