Quando uma poetisa parte, não morre: extingue-se apenas a sua voz. Na sua obra perdura imerso o eco ressoando por toda a eternidade.

Justificação de uma existência inconstante, vacilada, de sobrevivência construída poema a poema e dor renovada a cada breve paixão.

Pode haver felicidade quando a criação nos transcende?

Bela excedia as cores do mundo comum, o mundo reservado às senhoras de bem, destinadas a fazer um bom casamento. Habitava as sombras da existência sem nunca se resignar, antes partir. Numa voz clara, melódica, inspirada, Ana Cristina Silva, revela-nos a personalidade complexa, possivelmente doente, de Bela. Oferece-nos um escrito comovente e testemunho de dolorosa proximidade ao sofrimento de alguém que habitou na fímbria do amor. As metáforas vibrantes, por vezes cruéis, não pedem autorização para irromper texto adentro: o ventre da sua legítima esposa era uma bainha sem proveito para a sua semente. Como podemos julgar um homem assim?

A vida que não se concretizou no seio do casamento religioso surge por empréstimo, na esperança de ser aceite, de ser amada, de ser compreendida e de ver reconhecida a sua obra. A vida de Bela é feita de uma luta constante com a esperança, sem nunca deixar de caminhar à beira do abismo aos tropeções. A serpente da morte a erguer a cabeça nos momentos mais difíceis. A escrita a iluminar os cantos mais sombrios, mortalha para a dor, promessa de desfecho e de paz; sempre feita de palavras propícias a acolher mágoas, insuficientes como a vida.

A escrita de Ana Cristina Silva conhece os cantos à alma e não hesita em descer às profundidades mais sombrias onde a luz dá lugar à dor e, a partir daí, recria personagens fortes, imensos, nas suas fragilidades e tropeções. Neste livro habita uma mulher que ocupou, por escassos momentos, um lugar de plenitude na vida e no coração dos homens. Tão breve como um poema.


o que a memória ama permanece eterno.

Bela, Ana Cristina Silva, Bertrand Editora, 2020

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