Devastação | Eduardo Pitta

O mais recente livro de Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, ensaísta e crítico literário é uma obra de ficção, uma coletânea de seis contos.

Os contos tomam como título o nome dos seus protagonistas, apenas o primeiro nome, acentuando a condição de pessoas comuns que pela força do acaso se tornam protagonistas de uma experiência.

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Quatro mulheres e dois homens. Mas são as mulheres quem dá força à narrativa. Ema não percebe o que lhe está a acontecer. Gilberta é apanhada de surpresa enquanto prepara a festa do seu aniversário. Em vez das bebincas de Abrahim vê entrar casa adentro o que o marido andava a fazer no Rádio Clube, e logo naquele dia em que ela fazia 25 anos. Gilberta termina por ser o sustento da casa, com um marido que desistiu de procurar trabalho, assaltado pelo segredo que a mulher já não esconde. A tia de João Pedro assume o comando das operações urdindo um esquema infalível para que o sobrinho se livre de um Natal aborrecido na fazenda do pai, é ela quem toma as rédeas do conto. Zé Maria consome-se mais a pensar na mulher sofisticada e mundana com quem casou, do que no que lhe está a acontecer. É uma Adriana, cada vez mais inacessível quem, finalmente, o retira da apatia em que se debate. Dito assim tudo parece banal e casual, mas nestes contos existe uma violência, uma maldade que são em si mesmas duas personagens femininas que se colam bem às restantes mulheres destas histórias. Tudo o que tem força nos chega no feminino e tem sabor amargo e a tragédia.

Depois, temos esta escrita de Eduardo Pitta, limpa, sem metáforas, em linguagem direta. No início do conto Ema entra no autocarro, nada nos é dito sobre essa decisão. Mas o esgar do motorista e o espanto do revisor contam-nos toda uma história. Algo de grave se passou que não nos é dado a conhecer diretamente, cabe ao entendimento do leitor transcender a própria palavra escrita, uma elipse poderosa, avassaladora e o leitor treme de espectativa. Ao terceiro parágrafo já se rendeu e espera o pior, mas não consegue parar de ler. É assim em todos os contos, a elipse como uma segunda voz, um novo tipo de narrador a que não estamos habituados, pelo menos com este nível de mestria.

Todos nós somos senhores das nossas decisões ou de parte da nossa vida, mas o destino está nas circunstâncias de cada um, nos preconceitos, no que escondemos, no que a sociedade nos impõe, e sobreviver pode não ser uma opção. Devastação, impensável não ler este livro.

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