Memórias do Outono Ocidental – Um século sem bússola | Adriano Moreira

Neste livro encontramos um conjunto de reflexões sobre a Europa num período em que, fragmentando-se, perdeu a sua bússola, a que apontava para um projeto social comum, prosperidade mútua e paz sustentada. Uma Europa que se desmultiplica nas suas pequenas nacionalidades sempre que se depara com um presente que desmente o futuro sonhado pelas gerações que viveram a passagem do milénio. Esquecendo-se que essa identidade, de cariz nacionalista, demorou séculos a afirmar-se e nunca foi dada como assegurada.

O Estado Social surge como o primeiro alvo a abater, numa discussão técnica entre a sua viabilidade e futura sustentabilidade económica, olvidando que essa discussão arrasta consigo toda a escala de valores em que uma Europa forte e coesa estava a ser construída.

De matriz conservadora cristã (de pendor católico que não esconde), Adriano Moreira regista nestas páginas uma visão humanista que cita filósofos, políticos e pensadores da Igreja. Mas é a dignidade do homem e o seu direito à felicidade que lhe serve de bússola, denunciando o novo credo adotado pelo Mercado de trocar o valor das coisas, pelo preço das coisas. Vivemos um tempo em que a evolução técnica exige a cada momento gente mais especializada, apressando o envelhecimento social, atirando gente, ainda em idade não avançada, para o lote dos dispensáveis, dos que são afastados do mercado de trabalho qualificado, homens que viverão ainda muito tempo, transformando a idade num fardo financeiro. Não são só as identidades nacionais a quebrar os laços sociais, mas também o conflito de interesses geracionais; a peste grisalha. Desconhecendo-se que tranquila deve ser a sabedoria.

O neoliberalismo, os laivos de diretório assumidos pela Alemanha de Merkel, a quebra de solidariedade entre as nações europeias fizeram subir a fronteira da pobreza que galgou o Mediterrânio e se instalou nos países do sul da Europa, vistos como os únicos culpados pelo que lhes aconteceu. Não foi só a pobreza que galgou o Mediterrânio, mas o próprio conceito de civilização que recuou, fazendo com que a Europa do Norte veja o Sul como menos civilizado, menos apto. Pelos caminhos por onde os bárbaros tinham descido até ao sul, agora os pobres marchavam do sul para o norte em busca de trabalho, subsistência e futuro. Depois de ter perdido o seu Euromundo, com o fim do período colonial, a Europa arrisca-se, novamente, a minguar ao excluir do seu “seio de valores comuns” os países mediterrânicos, impondo-lhes um relacionamento assimétrico. Ao mesmo tempo, acolhe levas de migrantes com uma matriz cultural que lhes é estranha, mas que funcionam como mão-de-obra barata e socialmente desqualificada, assegurando serviços que os europeus já não estão dispostos a fazer, contribuindo com a sua natalidade para rejuvenescer a Europa. Esta é a geração estrume com que os donos do poder contam construir o futuro. Esse projeto, construído fora de uma ética de Estado ou política, precisa de um Estado exíguo e uma democracia que não seja cede efetiva do poder. Levar a classe média a trocar direitos por segurança, resolvendo a questão do colapso do Estado Social de uma forma simples: não há dinheiro.

O mundialismo, construído na base de uma “identidade comum” que não é mais do que um consumismo uniformizador, faz coincidir a geografia da fome com a perda do direito a essa identidade comum. As questões da Língua, da paz, das organizações multinacionais e da portabilidade da identidade num mundo global, ocupam muitas das reflexões, numa visão lúcida e humana, de protagonista do seu tempo. Uma voz que pensa. Ler estas reflexões leva a interrogar-nos: O que pode fazer um homem no seu tempo?

Compreender e assumir que a vocação da eternidade na terra está inscrita na cultura, obra dos homens, mas não na vida breve de cada um.

(Uma referência ao padre António Vieira: Deus fez o homem para a eternidade não para o tempo.)

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