O Reino | Jo Nesbo

Após a morte inesperada dos pais, dois irmãos herdam uma propriedade na montanha, que se segue a uma curva apertada, a que chamam a curva das cabras. Trata-se de uma propriedade mais próxima de um baldio do que de uma quinta, construída numa cota imprópria para a atividade agrícola, no máximo, talvez dê para manter um pequeno rebanho de cabras, e a isso tudo designaram por O Reino. E todo o cavaleiro defende o seu reino por mais pequeno e pobre que seja.

No pequeno mundo de uma aldeia todos acabam por alimentar desconfianças, vigiar-se e construir teorias que lhes parecem assentar como uma luva sobre a realidade tal como a entendem no momento. Um assassino astuto pode usar isso a seu favor, sobretudo quando não lhe resta outra opção.  A aldeia de Os não é um lugarejo isolado no sopé da montanha, os seus moradores evoluíram com o tempo, continuavam a bater nas mulheres, mas de forma alguma conduziriam depois de beber.

Afirma um dos personagens que a ideia por detrás do alfabeto árabe é que os símbolos reflitam os sons. Quando, por exemplo, se escreve um “a” em norueguês, alemão, espanhol, italiano e assim por adiante, esse “a” é prenunciado “a”. Mas em inglês, um “a” escrito pode ser tudo e mais alguma coisa. Car, cat, cal, ABC. É por detrás desta anarquia e por entre o fascínio pelo que o estrangeiro nos traz, que o perigo espreita. Contratar um assassino de um país do sul, pode não ser boa ideia; por exemplo, o carro em que se desloca pode não trazer pneus com o piso adequado à neve. Então a oportunidade surge, como se estivesse lá, aguardando pacientemente. Os montanheiros sabem que a natureza segue o seu curso implacável, sem nenhuma noção de moral ou de justiça, e quando dois irmãos, marcados por um segredo comum, se reencontram, não lhes resta outra alternativa se não unir forças e repetir os mesmos erros, porque a natureza agreste se repete em ciclos.

A escrita de Jo Nesbo é elegante, contida nas metáforas, e rica na natureza dos personagens, sobretudo nos que desempenham papéis secundários; esses não são apenas uma mancha de fundo, mas seres individualizados pelo seu aspeto, maneira de ser e de se comportar. Todo o ser é um mundo onde cabe muito recalcamento e sonhos por cumprir. Jo Nesbo é adepto da teoria da banalidade do mal, não é preciso muito para desviar um pacato cidadão do caminho da retidão. Escrito na primeira pessoa, o narrador entrega aos diálogos informais e casuais, o papel de nos surpreender com o que nos é revelado pela mais apagada das personagens. A arte de navegar um romance passa por saber quando dar lugar às personagens secundárias, convidando-as a participar na trama, sem lhes alterar o estatuto de irrelevância. Que o leitor não se deixe intimidar pelas 615 páginas. Garantidamente, não dará por elas. Quando o filho pródigo regressa, não é só o melhor bezerro que está à espera que lhe sirvam.

os olhos azuis e frios de um lobo que me atravessou como se eu não estivesse lá, como se estivesse em busca de algo que valesse a pena caçar e essa presa não fosse eu. Um olhar sem medo, foi o que pensei. O olhar vindo do topo da cadeia alimentar.

 sobre o livro