Os últimos Meses de Salazar | Paulo Otero

Muito para além da agonia de um ditador, este livro abraça todo um país, na sua hipocrisia e na sua relação com o poder. Na nota prévia, o autor propõe-nos uma reflexão sobre as relações entre a amizade e o poder: quem já o teve e deixou de o possuir, sem esperança de o recuperar, só então sabe quem são os seus amigos. E Salazar viveu o tempo suficiente para se aperceber da crueldade da lei da miséria e do poder.

Oficialmente Salazar cai da cadeira em agosto de 1968 (existe mais do que uma queda registada nos três dias que antecedem a considerada fatal), é destituído de funções como Presidente do Concelho de Ministros, presidido pelo presidente da república Almirante Américo Thomaz, a 27 de Setembro, facto que lhe é oficialmente ocultado até à sua morte a 27 de Julho de 1970. Ainda no exercício oficial das suas funções, já em fevereiro de 1968, aos 79 anos, Salazar começa a manifestar entre os mais próximos a consciência de que a sua autoridade como Chefe do Governo sofre erosão, desabafando até parece que não há um governo neste país.

É um Salazar profundamente doente quem recebe do seu médico o diagnóstico de hematoma sudoral e a proposta de uma rápida intervenção cirúrgica, diagnóstico contrariado pelo neurocirurgião que é chamado a ver o doente. Inicia-se então uma disputa de galos que obriga à intervenção do embaixador americano que faz vir, de urgência, um especialista da América para o desempate final; Salazar agoniza sem receber o tratamento adequado. O poder político preocupa-se em esconder do país o estado de saúde do governante. Apercebem-se rapidamente não ser a vida de Salazar que se encontra em jogo, mas o futuro do regime e sobretudo o de cada um. O estado de saúde do doente sofre alterações súbitas: anunciado o fim, logo o doente recupera. O regime agita-se. Ao não nomear sucessor, Salazar deixa os seus pretensos delfins entregues à luta pelo poder; mesmo moribundo continua a dificultar-lhes a vida. Entretanto, o país desagua no Hospital da Cruz Vermelha, com o povo fazendo longas filas para assinar o livro das melhoras e os políticos cirandando pelos corredores. Marcelo Caetano é primeiro a posicionar-se de forma estruturada à sucessão de Salazar, enquanto o embaixador Franco Nogueira, pela sua senioridade e pela continuidade que julga só ele poder imprimir ao governo de Portugal, se considera o sucessor natural, sem que para isso tenha de empreender qualquer diligência política. Ganhou quem fez o trabalho de casa e manobrou nos bastidores.

A confirmação por parte dos médicos de que o doente não recuperaria ao ponto de poder assumir o governo, leva o presidente da república a anunciar ao país a demissão de Salazar e a nomeação de Marcelo Caetano. Num ápice a Cruz Vermelha esvaziou-se de povo e de políticos. A Salazar só lhe resta os amigos genuínos e são muito poucos. Apesar do velho governante se ter transformado numa vela que se estava a apagar, a sua presença física persiste, recordando ao recém-empossado poder que nada é definitivo e nada está assegurado. A trémula luz da presença de Salazar paira sobre os seus sucessores como uma sombra ameaçadora.

Numa entrevista a um jornal francês, que não é divulgada em Portugal, Marcelo refere-se a Salazar como o poder morto, o político que é preciso enterrar e esquecer. Faltava arrumar o assunto junto da opinião pública portuguesa. A oportunidade surgiu a pretexto de uma entrevista para celebrar o aniversário do Presidente Salazar, em que este aparece na televisão como um velho enfermo balbuciando umas palavras de agradecimento que mal consegue ler num papel cujo texto segue de dedo trémulo. Esta intervenção seria orquestrada ao mais alto nível, tendo sido prometido à Dª Maria, a governanta e omnipresente protetora de Salazar, que a reportagem seria editada de forma a que só os melhores momentos fossem transmitidos, e assim conseguiram o seu assentimento. As imagens exibidas, escolhidas a dedo para chocar o país, oferecem o abominável espetáculo de um Salazar transformado num farrapo humano. Foi o fim de todas as esperanças.

Aparentemente, Salazar manteve-se até ao fim convicto de ainda presidir aos destinos do país e não existem provas de que tenha tomado cabal consciência de ter sido substituído, embora, nos seus curtos momentos de lucidez lamentasse o facto de ninguém mais o visitar ou lhe pedir conselhos. Marcelo Caetano desde que tomou posse do governo nunca mais o visitou, embora tenha contribuído para alimentar em Salazar a ilusão de que se mantinha no poder. O que podemos tomar como certo? Tal como o autor, recorro a uma citação do próprio Salazar: …até que ponto pode ainda ser verdade uma verdade incompleta?

Salazar presidiu aos destinos do país com mão de ferro e mesmo demitido e intelectualmente incapaz, não deixou de atormentar os seus sucessores, pelo simples facto de apenas existir. Neste livro muito mais se diz sobre este período alucinado e outro tanto ficou por dizer; tal como o autor nos recorda, a História não é monopólio dos historiadores. Neste relato dos últimos meses de Salazar, do estertor nacional que se seguiu ao anúncio da sua enfermidade, até ao esquecimento da moribunda figura de rei que não se deixa morrer, encontramos o inevitável retrato de um país subserviente, hipócrita e desleal.

Os últimos Meses de Salazar – Agosto de 1968 a julho de 1970, de Paulo Otero, Almedina 200

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