Orgulhosamente Sós | Bernardo Futscher Pereira

A diplomacia no Estado Novo em tempo de guerra foi marcada pela intransigência de Salazar em discutir o futuro dos territórios ultramarinos. Mesmo após 1961, com o início da luta armada em Angola e a perda de Goa, o regime permaneceu empedernido, aliado de uma realidade que a partir da década de 50 já se adivinhava imparável. Salazar encarava a mais pequena concessão ao diálogo como um caminho inclinado que levaria a perda dos territórios, entregando-os às mãos dos emergentes grupos de libertação. Com o consulado de Marcelo Caetano surgiu uma ténue esperança de diálogo, rapidamente gorada pela sua política titubeante, falta de liderança e incapacidade para tomar decisões de rutura com o regime que herdara.

Apesar do isolamento internacional, Portugal estabeleceu compromissos pontuais com alguns dos novos países africanos ou interferiu diretamente nos seus destinos (como no caso do Biafra ou da independência da Rodésia), conseguindo, ao mesmo tempo, que França e Alemanha lhe vendessem o armamento de que precisava desesperadamente. Já no consolado de Caetano, com a consciência de que uma vitória militar era impossível e que o envolvimento militar apenas permitiria ganhar tempo para negociar com os movimentos de libertação a partir de uma posição mais confortável, o regime não foi capaz de dar esse passo; mesmo com as ações exploratórias de Spínola na Guiné e de Jorge Jardim em Moçambique, o regime parecia aguardar pelo regresso de D. Sebastião. A guerra colonial seria travada de acordo com a personalidade dos generais que comandavam as forças no terreno, da estratégia de conquista das populações levando-as a afastar-se voluntariamente dos movimentos de guerrilha, à brutalidade sem precedentes de Kaúlza de Arriaga que em Moçambique semeou genocídios, numa ótica de conquista de terreno com total desprezo pelas populações nativas. As suas ações contribuíram para isolar ainda mais Portugal, chocaram os aliados Sul Africanos e levaram a PIDE a propor o seu afastamento. Sob o seu comando militar a Frelimo reforçou os apoios internacionais e beneficiou da adesão massiva da população, permitindo-lhe estender a sua ação à região de Tete. Embora este livro nos ofereça uma visão realista e bastante elucidativa da falta de opções a que Portugal chegou no 25 de Abril, condicionado pela única solução que, desde a Organização de Unidade Africana à ONU, a comunidade internacional aceitava: a entrega dos territórios ultramarinos aos movimentos de libertação. Já com os três generais em Lisboa, Spínola (da Guiné), Costa Gomes (de Angola) e Kaulza (de Moçambique), Caetano responde com desespero ao livro de Spínola “Portugal e o Futuro” tentando forçar uma cessação branca em Angola, ordenando ao governador que assuma a presidência do país, convidando Savimbi para primeiro ministro, e em Moçambique com Jorge Jardim como Chefe de Estado. Uma solução que só a ingenuidade, desespero e falta de visão a tornavam credível aos olhos de Marcelo.

O que aconteceu a Portugal foi uma generalizada falta de liderança, primeiro de Salazar incapaz de pensar fora da caixa, de Spínola que não assumiu pela via militar os destinos do país, e de Marcelo Caetano que procurou navegar em todas as águas. O regime caiu sem espaço de manobra, perto da derrota militar na Guiné e em Moçambique (onde a Frelimo acabara de receber os mísseis terra-ar soviéticos idênticos aos que equipavam o PAIGC), recebe, em plena “Metrópole”, o golpe de misericórdia dado pela revolução do 25 de Abril; o desabar do baralho de cartas foi inevitável.

A merecer estudo estão também os papeis desempenhados por Jorge Jardim que nem sempre se moveu no estrito interesse do Estado Português, e o papel da estrutura paramilitar da PIDE. O assassinato por parte da PIDE de Eduardo Mondlane, um pró-ocidental, atirou a Frelimo para as mãos de Samora Machel e para a esfera sino-soviética, o que contrariou os esforços de Franco Nogueira e de Marcelo Caetano de aliciar Mondlane para a causa portuguesa. O assassinato do general Humberto Delgado em Espanha, sem que o Caudilho estivesse a par, ditou o afastamento definitivo entre os dois ditadores. A aprovação de Salazar só podia resultar de uma mente já meio senil, como atesta o inusitado envolvimento do seu guarda-costas e fotógrafo pessoal.

As páginas dedicadas à construção do ruinoso projeto de Cabora Bassa, uma decisão que não deu os frutos políticos desejados, estão recheadas de palavras demasiado pesadas para o povo pacato que o português julga ser. Em muito contribuiu o entendimento que Kaúlza fazia do combate à Frelimo que passava pelo ocasional massacre de populações civis. Estes massacres fizeram o regime perder um dos seus pilares: a Igreja Católica que através dos padres missionários estrangeiros se viu forçada a denunciar as atrocidades. O segundo pilar seria o exército que foi o percussor direto da queda do regime. Todos os protagonistas desta história escreveram os seus livros de memórias e o autor não deixou de os consultar, mas só a distância pessoal em relação aos acontecimentos assegura a abordagem que nos permite amadurecer como povo que assume a sua história e reconhece os seus erros. Devemos isso a todas as vítimas deste processo.

Apesar do isolamento internacional, Portugal estabeleceu compromissos pontuais com alguns dos novos países africanos ou interferiu diretamente nos seus destinos (como no caso do Biafra ou da independência da Rodésia), conseguindo, ao mesmo tempo, que França e Alemanha lhe vendessem o armamento de que precisava desesperadamente. Já no consolado de Caetano, com a consciência de que uma vitória militar era impossível e que o envolvimento militar apenas permitiria ganhar tempo para negociar com os movimentos de libertação a partir de uma posição mais confortável, o regime não foi capaz de dar esse passo; mesmo com as ações exploratórias de Spínola na Guiné e de Jorge Jardim em Moçambique, o regime parecia aguardar pelo regresso de D. Sebastião. A guerra colonial seria travada de acordo com a personalidade dos generais que comandavam as forças no terreno, da estratégia de conquista das populações levando-as a afastar-se voluntariamente dos movimentos de guerrilha, à brutalidade sem precedentes de Kaúlza de Arriaga que em Moçambique semeou genocídios, numa ótica de conquista de terreno com total desprezo pelas populações nativas. As suas ações contribuíram para isolar ainda mais Portugal, chocaram os aliados Sul Africanos e levaram a PIDE a propor o seu afastamento. Sob o seu comando militar a Frelimo reforçou os apoios internacionais e beneficiou da adesão massiva da população, permitindo-lhe estender a sua ação à região de Tete. Embora este livro nos ofereça uma visão realista e bastante elucidativa da falta de opções a que Portugal chegou no 25 de Abril, condicionado pela única solução que, desde a Organização de Unidade Africana à ONU, a comunidade internacional aceitava: a entrega dos territórios ultramarinos aos movimentos de libertação. Já com os três generais em Lisboa, Spínola (da Guiné), Costa Gomes (de Angola) e Kaulza (de Moçambique), Caetano responde com desespero ao livro de Spínola “Portugal e o Futuro” tentando forçar uma cessação branca em Angola, ordenando ao governador que assuma a presidência do país, convidando Savimbi para primeiro ministro, e em Moçambique com Jorge Jardim como Chefe de Estado. Uma solução que só a ingenuidade, desespero e falta de visão a tornavam credível aos olhos de Marcelo.

O que aconteceu a Portugal foi uma generalizada falta de liderança, primeiro de Salazar incapaz de pensar fora da caixa, de Spínola que não assumiu pela via militar os destinos do país, e de Marcelo Caetano que procurou navegar em todas as águas. O regime caiu sem espaço de manobra, perto da derrota militar na Guiné e em Moçambique (onde a Frelimo acabara de receber os mísseis terra-ar soviéticos idênticos aos que equipavam o PAIGC), recebe, em plena “Metrópole”, o golpe de misericórdia dado pela revolução do 25 de Abril; o desabar do baralho de cartas foi inevitável.

A merecer estudo estão também os papeis desempenhados por Jorge Jardim que nem sempre se moveu no estrito interesse do Estado Português, e o papel da estrutura paramilitar da PIDE. O assassinato por parte da PIDE de Eduardo Mondlane, um pró-ocidental, atirou a Frelimo para as mãos de Samora Machel e para a esfera sino-soviética, o que contrariou os esforços de Franco Nogueira e de Marcelo Caetano de aliciar Mondlane para a causa portuguesa. O assassinato do general Humberto Delgado em Espanha, sem que o Caudilho estivesse a par, ditou o afastamento definitivo entre os dois ditadores. A aprovação de Salazar só podia resultar de uma mente já meio senil, como atesta o inusitado envolvimento do seu guarda-costas e fotógrafo pessoal.

As páginas dedicadas à construção do ruinoso projeto de Cabora Bassa, uma decisão que não deu os frutos políticos desejados, estão recheadas de palavras demasiado pesadas para o povo pacato que o português julga ser. Em muito contribuiu o entendimento que Kaúlza fazia do combate à Frelimo que passava pelo ocasional massacre de populações civis. Estes massacres fizeram o regime perder um dos seus pilares: a Igreja Católica que através dos padres missionários estrangeiros se viu forçada a denunciar as atrocidades. O segundo pilar seria o exército que foi o percussor direto da queda do regime. Todos os protagonistas desta história escreveram os seus livros de memórias e o autor não deixou de os consultar, mas só a distância pessoal em relação aos acontecimentos assegura a abordagem que nos permite amadurecer como povo que assume a sua história e reconhece os seus erros. Devemos isso a todas as vítimas deste processo.

Orgulhosamente Sós – Diplomacia em Guerra (1962 – 1974), de Bernardo Futscher Pereira

2022 D. Quixote

 sobre o livro    

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