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Acrítico

Leituras dispersas

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” Manuel Alegre

E novamente o medo. O medo antes deste medo do outro lado do mar. O medo de cada dia, de cada noite, por vezes da cada hora. Estava por dentro, sentava-se na mesa ao lado, ouvia, espiava, perscrutava, rondava na praça, seguia passo a passo pela rua, insinuava-se no sono, retinia no telefone a meio da noite, Continue reading “” Manuel Alegre”

” Miguel Real

Pela arte da palavra de padre António Vieira, Portugal, país de valor exíguo no século XVII, valendo apenas pelo legado dos territórios do Império, permanece desde então sebastianisticamente em estado inquieto de vigília, imagem perfeita de país suspenso no tempo, aguardando o «despertar», a «Hora!» pessoana, porque de novo cruzará os mares Continue reading “” Miguel Real”

” Pär Lagerkvist

Nós, os anões, não concebemos; somos estéreis por natureza. Não nos ocupamos de perpetuar a vida, nem mesmo sentimos tal desejo. A fecundidade é inútil para nós, visto que os seres normais se encarregam de procriar anões.

O Anão, de Pär Lagerkvist, 1944,  Antígona (2013) Continue reading “” Pär Lagerkvist”

” Cristina Carvalho

Escrevo-vos, sentada neste escritório a dar para uma paisagem que me é muito familiar. Eu desenho pessoas. Não as desenho como se fosse um artista, mas como escritora. Desenho-lhes os interiores dos cérebros, os pensamentos, as idiossincrasias, manias, hábitos, sentimentos. É isto que eu desenho. Adoro pessoas. Esta é a verdade. Devoro-as, retiro-lhes as gorduras, transformo-as. Desenho-as belas ou repugnantes. É conforme me dá. Provavelmente, todas estas sensações remontam à época das pocilgas…

rebeldia, de Cristina Carvalho, 2017, Planeta.

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” Howard Jacobson

Quem visitava o palácio fazia o quem visita palácios faz, apaparicando o herdeiro presuntivo. O facto de ele não reparar minimamente em ninguém era sinal de autossuficiência e de uma vida interior de grande riqueza. O facto de chorar mal lhe negassem fosse o que fosse que aqueles dedinhos quisessem agarrar apenas demonstravam a determinação dele. O facto de nunca dizer uma só palavra que reconhecessem dava a entender que já dominava línguas estrangeiras. E o facto de cuspir, vomitar e se peidar na presença dessas visitas apenas provava como era indiferente à opinião do mundo. Continue reading “” Howard Jacobson”

” Paolo Cognetti

Ainda antes de estar tudo parado o meu pai desceu a correr, mas não conseguia localizar o amigo. A neve agora era dura. Neve pesada e bem comprimida pela queda. Lançou-se pela avalanche a gritar, olhando para todos os lados para ver se algo se movia, mas neve estava outra vez imóvel embora não tivesse passado mais de um minuto depois da queda. Continue reading “” Paolo Cognetti”

” Manuel Alegre

Passeava com ela uma tarde no Parque, quando de repente percebeu: a guerra já estava ali. Havia uma sombra por dentro dos rapazes e raparigas que se sentavam à beira do rio. Eles riam, falavam, beijavam-se, sentavam-se de mãos dadas nos bancos de pedra. Mas uma sombra crescia dentro deles, escurecia o olhar, apagava de súbito os risos e as conversas. Continue reading “” Manuel Alegre”

” Joseph Mitchel

Ultimamente ganhou o hábito de desafiar as pessoas que encontra a adivinharem-lhe a idade. As respostas variam entre sessenta e cinco e setenta e cinco; tem cinquenta e três. Mas Joe nunca fica melindrado; toma isso como uma prova de superioridade. “Vivo mais num ano”, diz ele, “do que o comum dos mortais em dez.”

O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchel, 2000 (na 5ªedição 2017), D. Quixote

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” António Tavares

Ela punha os lençóis a secar e apeteceu-me, de repente, escrever sobre isso, sobre este quadro tão natural quanto belo, e com ele encher uma página de jornal, duas, três, com uma manchete exuberante: Rapariga põe lençóis a secar! Assim, com uma exclamação final, a admiração e a surpresa talhadas no papel como uma escultura na pedra, a encher as ruas, os escaparates, a voz dos ardinas, as conversas das gentes: e o acontecimento era este e resumia-se à sua simplicidade; não era uma guerra, um desastre, uma catástrofe, uma morte, uma condenação, uma panegírico, era só isto mesmo: lençóis brancos adejando ao vento da tarde.

Todos os Dias Morrem Deuses, de António Tavares, 2017, D. Quixote.

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