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Acrítico

Leituras dispersas

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” Carla Pais

E ainda hoje o pastor acredita que o inverno se havia aninhado dentro daquele corpo, pois todas as vezes que lhe mudava as fraldas ela gemia como as árvores nuas no seio do temporal. A carne foi-lhe murchando, as feridas tinham olhos de sangue vivo, cada vez mais vivo. Aquelas crostas gulosas de dores, semelhantes ao nascer brusco de uma tempestade, foram-lhe mastigando o tecido que arrecadava os ossos e as artroses foram-lhe estrangulando a memória aos bocados, as palavras por inteiro. E o pastor cuidava dela como cuidava das ovelhas, com todo o zelo e empenho que sobrava ao cansaço. Continue reading “” Carla Pais”

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” Amos Oz

E, no entanto, reconhecia que o sistema do kibutz era fundamentalmente injusto para as mulheres, relegando-as quase sem exceção para trabalhos de serviços: cozinhar, limpar, cuidar das crianças, lavar costurar e engomar. As mulheres deviam gozar de uma igualdade total, mas a igualdade existia apenas na condição de elas se comportarem como homens e de se esforçarem por se parecer com eles: não podiam maquilhar-se, nem pintar os lábios e deviam esconder a sua feminilidade. Continue reading “” Amos Oz”

” Selva Almada

Os rapazes tinham um costume, uma brincadeira, não sei como lhe chamar, conta-me ele. Diziam que era fazer um bezerro. Marcavam uma rapariga, sempre de classe baixa. Um grupo armava-se em pretendente. Segui-a na rua, dizia-lhe coisas, seduzia-a. Continue reading “” Selva Almada”

” Primo Levi #01

Não era difícil viver naquela fábrica: difícil era trabalhar ali, por causa de todos aqueles empecilhos. Mas a solução era simples, bastava não trabalhar. Ela (Giulia) apercebera-se disso rapidamente e, num ano, modéstia à parte, não fizera quase nada; pouco mais fazia do que morar os aparelhos de manhã, e mais para satisfazer o olhar, e desmonta-los à tarde segundo as recomendações, os relatórios diários fazia-os com a imaginação. Continue reading “” Primo Levi #01″

” Manuel Alegre

E novamente o medo. O medo antes deste medo do outro lado do mar. O medo de cada dia, de cada noite, por vezes da cada hora. Estava por dentro, sentava-se na mesa ao lado, ouvia, espiava, perscrutava, rondava na praça, seguia passo a passo pela rua, insinuava-se no sono, retinia no telefone a meio da noite, Continue reading “” Manuel Alegre”

” Miguel Real

Pela arte da palavra de padre António Vieira, Portugal, país de valor exíguo no século XVII, valendo apenas pelo legado dos territórios do Império, permanece desde então sebastianisticamente em estado inquieto de vigília, imagem perfeita de país suspenso no tempo, aguardando o «despertar», a «Hora!» pessoana, porque de novo cruzará os mares Continue reading “” Miguel Real”

” Pär Lagerkvist

Nós, os anões, não concebemos; somos estéreis por natureza. Não nos ocupamos de perpetuar a vida, nem mesmo sentimos tal desejo. A fecundidade é inútil para nós, visto que os seres normais se encarregam de procriar anões.

O Anão, de Pär Lagerkvist, 1944,  Antígona (2013) Continue reading “” Pär Lagerkvist”

” Cristina Carvalho

Escrevo-vos, sentada neste escritório a dar para uma paisagem que me é muito familiar. Eu desenho pessoas. Não as desenho como se fosse um artista, mas como escritora. Desenho-lhes os interiores dos cérebros, os pensamentos, as idiossincrasias, manias, hábitos, sentimentos. É isto que eu desenho. Adoro pessoas. Esta é a verdade. Devoro-as, retiro-lhes as gorduras, transformo-as. Desenho-as belas ou repugnantes. É conforme me dá. Provavelmente, todas estas sensações remontam à época das pocilgas…

rebeldia, de Cristina Carvalho, 2017, Planeta.

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” Howard Jacobson

Quem visitava o palácio fazia o quem visita palácios faz, apaparicando o herdeiro presuntivo. O facto de ele não reparar minimamente em ninguém era sinal de autossuficiência e de uma vida interior de grande riqueza. O facto de chorar mal lhe negassem fosse o que fosse que aqueles dedinhos quisessem agarrar apenas demonstravam a determinação dele. O facto de nunca dizer uma só palavra que reconhecessem dava a entender que já dominava línguas estrangeiras. E o facto de cuspir, vomitar e se peidar na presença dessas visitas apenas provava como era indiferente à opinião do mundo. Continue reading “” Howard Jacobson”

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