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Orgulhosamente Sós | Bernardo Futscher Pereira

Orgulhosamente Sós | Bernardo Futscher Pereira

A diplomacia no Estado Novo em tempo de guerra foi marcada pela intransigência de Salazar em discutir o futuro dos territórios ultramarinos. Mesmo após 1961, com o início da luta armada em Angola e a perda de Goa, o regime permaneceu empedernido, aliado de uma realidade que a partir da década de 50 já se adivinhava imparável. Salazar encarava a mais pequena concessão ao diálogo como um caminho inclinado que levaria a perda dos territórios, entregando-os às mãos dos emergentes grupos de libertação. Com o consulado de Marcelo Caetano surgiu uma ténue esperança de diálogo, rapidamente gorada pela sua política titubeante, falta de liderança e incapacidade para tomar decisões de rutura com o regime que herdara.

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Os Últimos Meses de Salazar | Paulo Otero

Os últimos Meses de Salazar | Paulo Otero

Muito para além da agonia de um ditador, este livro abraça todo um país, na sua hipocrisia e na sua relação com o poder. Na nota prévia, o autor propõe-nos uma reflexão sobre as relações entre a amizade e o poder: quem já o teve e deixou de o possuir, sem esperança de o recuperar, só então sabe quem são os seus amigos. E Salazar viveu o tempo suficiente para se aperceber da crueldade da lei da miséria e do poder.

Oficialmente Salazar cai da cadeira em agosto de 1968 (existe mais do que uma queda registada nos três dias que antecedem a considerada fatal), é destituído de funções como Presidente do Concelho de Ministros, presidido pelo presidente da república Almirante Américo Thomaz, a 27 de Setembro, facto que lhe é oficialmente ocultado até à sua morte a 27 de Julho de 1970. Ainda no exercício oficial das suas funções, já em fevereiro de 1968, aos 79 anos, Salazar começa a manifestar entre os mais próximos a consciência de que a sua autoridade como Chefe do Governo sofre erosão, desabafando até parece que não há um governo neste país.

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História do Beijo | direção de Gérald Cahen

História do Beijo | direção de Gérald Cahen

Desde os tempos bíblicos que o beijo é masculino, elitista ou usado como selo (ratificando um pacto indissolúvel). Na antiguidade o beijo trocado na boca reconhecia a igualdade de estatuto entre dois homens. Era um beijo trocado entre iguais. Pelo menos na história do mundo judaico-cristão a que se resume o âmbito deste livro. Continue reading “História do Beijo | direção de Gérald Cahen”

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História da Beleza | direção de Umberto Eco

História da Beleza | direção de Umberto Eco

O conceito do belo foi evoluindo ao longo dos tempos tendo a arte, independentemente do seu suporte (desenho, pintura, poesia, prosa, música, arquitetura), testemunhado essa viagem. É da representação do belo e da forma como o seu conceito ficou registado ao longo dos tempos, nos diversos suportes, que esta obra parte para contruir a sua história. Continue reading “História da Beleza | direção de Umberto Eco”

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À Procura da Manhã Clara | Ana Cristina Silva

À Procura da Manhã Clara | Ana Cristina Silva

Uma revolução é o triunfo da mundanidade, a exclusão do requinte, o fim do glamour, a impossibilidade de estrear um vestido elegante num evento da alta sociedade. O chá com as amigas permanente adiado, de tão fugidias andavam, como se a sua família fosse agora um produto tóxico a evitar. O ordenado do marido suspenso, a comprometer a continuidade das empregadas, da ida com regularidade à cabeleireira. Continue reading “À Procura da Manhã Clara | Ana Cristina Silva”

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Ele e o Outro | Hermann Hesse

Ele e o Outro | Hermann Hesse

Um homem desdobra-se em si próprio e lança-se numa viagem, uma fuga em forma de anonimato, como se a coberto de uma identidade desconhecida um novo mundo se abrisse numa vida mais suportável. Um novo Klein que já não é mais o original. E, contudo, carrega consigo a culpa, tal como a humanidade, se renova a cada novo ser humano sem se libertar do pecado original. A viagem transporta sempre uma parte de nós à qual continuamos aprisionados, por mais que a paisagem nos fascine e nos roube o olhar. Um antes e um depois da fuga; esse depois é a novidade do desconhecido. Podemos transformarmo-nos nesse algo desconhecido? Ao visitar uma cidade pela primeira vez podemos fundir-nos no tecido humano numa nova versão do nosso eu? Será esse inexplorado uma surpresa, uma versão mais suportável? Ou simplesmente a negação do Klein que viveu uma vida apagada como um predador que aguarda, imóvel, o momento da matança. Continue reading “Ele e o Outro | Hermann Hesse”

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A Arte de Vencer uma Discussão | Arthur Schopenhauer

A Arte de Vencer uma Discussão | Arthur Schopenhauer

Todo o comentador de televisão ou político encontra neste livro um manual de autoajuda ou de desenvolvimento pessoal perfeito para o exercício do seu métier. O ponto de partida passa por distinguir dois conceitos: Lógica e Dialética. O primeiro coloca-nos no campo da palavra associada à razão. Desde logo, quem pretenda vencer uma discussão ou vincar uma posição, não deve alicerçar os seus argumentos na razão o que remete para a ciência das leis do pensamento e, provavelmente, exige o domínio histórico, cultural e científico do tema; uma armadilha a evitar. Continue reading “A Arte de Vencer uma Discussão | Arthur Schopenhauer”

Encruzilhadas | Jonathan Franzen

Encruzilhadas | Jonathan Franzen

Na vida simples da pequena comunidade Hinsdale, em torno do projeto comunitário e religioso de New Prospect, cruzam-se os personagens deste romance. Os seus sonhos, expectativas e desencontros na permanente busca de satisfazer o vazio que lhes rouba a vida, e que muitos acreditam preencher com Deus. Um Deus obrigado a manifestar-se, a ser tangível, a estar presente na entrega total de cada um ao trabalho comunitário Um espaço privilegiado para o encontro com Deus, igualmente partilhado com as tentações de que o mais devoto não se consegue livrar.

O trabalho com comunidades exóticas, padecendo de necessidades tão básicas que se tornam tangíveis, ao alcance do trabalho braçal e que, mais do que a oração, parecem ser o trilho certo na aproximação a Deus. A realização individual e reparadora como exercício espiritual, oferecendo, simultaneamente, a oportunidade de consumar um pecado longe de olhares indiscretos. Deus não nos vigia tanto quanto o próximo, ninguém nos escrutina de forma tão cruel como a comunidade onde nos inserimos e ninguém é mais relutante em perdoar do que o que outro. O que nos faz permanecer nessa comunidade? Que força anula todas as tentativas de fuga? O pecado é uma noção partilhada, impossível de a viver a sós.

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Auschwitz, Cidade tranquila | Primo Levi

Auschwitz, Cidade tranquila | Primo Levi

A irracionalidade do holocausto, tema central da obra de Primo Levi, tem em Auschwitz o seu foco principal. Deparamo-nos com textos que funcionam como ensaios para o que viria a ser mais tarde escrito e desenvolvido noutros livros. Como se sobrevive a Auschwitz? Negando a essência que faz de um homem, um homem, e nisso construir o refúgio possível. Os que procuram manter-se eretos nos seus corpos curvados pela fome e os que se arrastam no lodo como se procurassem o seio da sua mãe. Toda a prisão é uma distopia humana e pessoal, em que cada um constrói a esperança de sobreviver mais um dia, em particular quando os tiros da artilharia Russa se começam a ouvir, cada vez mais próximos. Perder-se com a salvação ali tão perto.

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