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Chico Buarque

Leite derramado

Leite DerramadoLeite Derramado by Chico Buarque

Num monólogo, viajamos pelas memórias de um velho no seu leito terminal; um registo poético ponteado por uma ocasional tristeza doce que nos acompanha pela história da família Assumpção. O autor vai-nos logo alertando para o facto de “com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida.”

Vamos seguindo este relato entre o deleite e a vigilância apertada, pois frequentemente as emoções vividas se sobrepõem à realidade. Deixo-vos um relato de um desencontro com o seu sócio Dubosc, e a dor do ciúme que se lhe seguiu.

“Mas Matilde não é muito de sombra, vira e mexe, vai dar um mergulho, e tem sempre uma hora em que sai com um balde para catar as conchas da filha. Então é provável que, a fim de um passatempo, Dubosc a alcance e caminhe com ela à beira da água. Aqui e ali vão parar para colher uma concha, ela se agachando, ele a se vergar, esticando o braço comprido. Nada se dirão, porém Matilde talvez descubra algum significado no toque-toque das conchas, que ela deposita e ele atira no balde. Quando o balde se encher até à borda, será como se tudo entre eles estivesse dito, e seguirão em frente até o forte no fim da praia, onde Matilde vai querer refrescar o corpo. Posso vê-la pousando o balde aos pés de Dubosc e entrando no mar daquele jeito dela, como se pulasse corda. Sairá das águas puxando os cabelos para trás, e Dubosc não vai perceber que uma marola vira o balde que ela deixara aos seus cuidados. Matilde verá as conchas que o refluxo espalhou na areia, pensará que ali pode estar desenhado o seu futuro, mas Dubosc as recolherá na sua manzorra. As conchas que ele joga no balde aos punhados, cheias de areia molhada, ela vai colher de volta e lavar uma a uma. Matilde vai olhar dentro de cada concha, vai espiar o interior daquelas casas abandonadas. E Dubosc olhará o céu, pela posição do sol calculará que àquela hora estarei chegando à Marambia. Àquela hora eu não fazia ideia de onde estava, na minha estrada não batia o sol, eu seguia imerso numa sombra verde.”

 

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Estorvo

EstorvoEstorvo by Chico Buarque

O voo alucinado de um personagem narrador pelas suas memórias ou simplesmente contadas como deveriam ter acontecido. Por vezes existe demasiada fatalidade no presente para que isso não resvale para o futuro. Porque as coincidências resultam de um destino simétrico, repetindo-se se em eco.

A escrita traz um traço poético e onírico que nos faz lembrar a magia de Mia Couto. É uma escrita escorreita que nos oferece uma forma de olhar o mundo que é a do personagem e nós esticamos o pescoço para espreitar através desse olhar.

“Peço pizza de mozarela, mesmo achando que nós dois não combinamos mais com pizza, com essa lanchonete, com esse shopping. Invejo as cabeças que despontam no vão, que sobem curiosas uma atrás da outra na escada rolante, cabeças que esticam o pescoço e vão criando corpo, e criam pés que saltam na sobreloja, e viram pessoas que agitam cabeças que falam, piscam riem e mastigam triângulos de pizza por ali.”

“Por um instante experimento uma espécie d alegria, tendo a sensação de respirar mais ar do que preciso.”

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