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Mário Domingos

O Despertar dos Verbos – o prefácio

Despertar dos VerbosA poesia existe em estado latente na alma portuguesa. Só pode ser. Escreve-se versos, publica-se livros e prefacia-se um pouco por todo o lado. E são raros os momentos em que tropeçamos no fluir de sentimentos nascentes da mais intensa inquietação, numa poesia para ser apreciada palavra por palavra, frase por frase, conceito por conceito, porque toda ela é densa, sofisticada, significante.

Em “O Despertar dos Verbos”, de Mário Domingos, encontramos essa dádiva duma poesia inteira, para a qual deveremos estar totalmente despertos em todos os nossos sentidos, pois a beleza é grande, a qualidade é muita, as palavras soarão como cada um de nós as souber aproveitar.

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O Despertar dos Verbos

Despertar dos VerbosEsta é uma proposta de uma quase viagem ao livro o Despertar dos Verbos de Mário Domingos. Uma poesia escrita com um pulso concreto e latejante em busca das palavras na raiz incandescente do poema. Poemas aráveis, cortados por verbos que nos interrogam e nos despertam, que nos remetem para o choro da criança a quem morreram os brinquedos, para a palavra dolorosamente calada, sentinelas despertas do rumo de todos os navios.

Os teus braços vêm para mim como navios
a sair da bruma, oblíquos, ondulantes,
no rumo rigoroso sobre a planície de água:
navios longos, ainda ao largo do meu corpo…

Eterno viajante, sempre prisioneiro desse quase quente e simples ato de viver acordado, de registar silêncios em madeira trabalhada, sem adiar a música dos gestos, palavras duras, rompendo barreiras, linha errática de um espírito que arde. Eis o poeta fazedor de poemas. Não para nosso deleite imediato, mas para o desafio inteligente da leitura, trabalho de ler para além da melodia, do ritmo que nos embala, dos poemas enredo que nos contam uma história, dos poemas que revisitam outros poemas, alguns impossíveis outros em permanente transformação. Somos o leitor sentinela, vida que se solta a cada página, rumo que se completa numa outra dimensão. Nesta poesia, seremos esse sonho que eclodiu.

Nós, leitores quase lúcidos, somos a palavra viva donde partem todas as viagens.

quero partir sem medo
quero partir sem mágoa
na estrada dos teu olhos
onde as pedras são de água.

Nota: Escasso o tempo para tamanha perda, sobra a dor. Quando escrevi este texto estava perante uma primeira obra publicada. Não podia antecipar o fecho de um ciclo. Um momento mal calculado nas esferas do tempo roubou-nos o Mário Domingos. Não se cala a sua voz. Voltaremos a estar juntos e nesse tempo seremos eternos de forma demorada.

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