Vinte e seis homens numa cave, presos a um trabalho ingrato de fazer biscoitos, recebem a visita regular de uma menina. Um anjo que lhes proporciona o momento especial do dia, pelo qual todos esperam “empurrando-nos uns aos outros, e ela entra, tão alegre, tão encantadora, segurando o seu avental.”

“Dizemos-lhe palavras especiais – palavras que reservamos exclusivamente para ela.”

“Mas, mesmo depois de se ter ido embora, ela continua a ser o tema da nossa conversa, dizemos o mesmo que dissemos na véspera e no dia anterior, porque tanto ela como nós e tudo o que nos rodeia somos os mesmos da véspera e do dia anterior. Torna-se muito difícil e doloroso viver quando nada muda à nossa volta e, se isso não nos mata de vez a alma, então, quanto mais vivemos, mais dolorosa se torna a imobilidade daquilo que nos rodeia.”

O mundo dos homens não é mais do que uma cave escura, onde, mesmo assim, existe sempre quem viva acima de nós: “Não gostávamos dos padeiros porque tínhamos inveja deles: o seu trabalho era mais fácil do que o nosso, recebiam mais, tinham refeições melhores, uma sala de trabalho mais espaçosa e iluminada do que a nossa e eram• todos limpos e saudáveis… em comparação connosco.”
Vivemos numa escuridão que se contenta com a simulação de um rasgo de luz, por mais breve que seja. Um pontinho luminoso que nos substitua a esperança.