O AssobiadorO Assobiador by Ondjaki

Numa aldeia de velhos, no interior de Angola, onde se observa um estranho ritual de adoração dos burros, chegam dois personagens vindos de fora. O caixeiro-viajante e o assobiador.

O primeiro espreita a aldeia com a consciência de alguém “treinado nos campos da vida”, “vendedor de bugigangas, de objectos para distrair ou encantar”, e o segundo assobia um choro como se tivesse por missão exultar a aldeia a um ritual pagão, catalisador de todas as forças, ele, o assobiador, “ o distribuidor enganoso e exclusivo que a tristeza arranjara para mostrar à Humanidade apenas a sua face bela”.

É o assobiador quem desencanta à pacata aldeia o voo dos pássaros e o seu estranho comportamento, o sonho dos seus habitantes, as portas fechadas da igreja, interdita à curiosidade de todos. O assobiador é um ser invisível, sente-se a sua presença, sabe-se que ele habita aquele espaço como uma profanação e, no enanto, escuta-se o seu assobio como se fosse a fracção do pão, nunca antes dessa forma comungada, tão intensa, tão bela e libertadora.

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