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Rui Zink

Por Amor de Deus, de António Souza-Cardoso

Por Amor de DeusPor Amor de Deus by António Souza-Cardoso

O filho mais velho de uma casa fidalgal, de férias na quinta da família no Douro, deixa-se envolver com a filha do caseiro, lançando a desgraça sobre a família de ambos. Decide, então, refugiar-se em África. Aí iniciará um périplo pelo mundo onde acumulará fortuna, apesar das armadilhas em que se deixa envolver, fruto da sua ingenuidade. O indigente que rejeitou a família, chega a milionário. De regresso a Portugal sofre um acidente cardiovascular que o coloca numa cadeira de rodas. Encena um golpe palaciano, fazendo-se passar por incapacitado, para melhor poder vigiar a família a quem hesita deixar a sua fortuna. O desfecho final é surpreendente e traz consigo o clássico retorno às origens.

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A Instalação do Medo, de Rui Zink

A instalação do medoA instalação do medo by Rui Zink

Houve tempos, ainda recentes, em que a humanidade parecia ter-se libertado do medo. Foi preciso então intervir. Os Estados começaram a instalar o medo de forma profissional e ao domicílio.

São os medos infantis e os medos adultos. O medo do desemprego, das convulsões dos mercados, da doença, das epidemias virais, da violência, da taxas de juro, do terrorismo e, finalmente, o medo que guardamos em nossas casas. O medo de cada um, não formatado, não homologado. O medo de contrafação.

Em todos os telejornais somos confrontados com o atarracado Sousa a relatar em direto do local a última desgraça e o pivot de serviço, o bem falante Carlos, sempre repetindo as mesmas desgraças, os mesmos chavões (vivemos acima das nossas possibilidades, é preciso baixar os ordenados, é preciso austeridade, reduzir o défice, para nosso bem), os mesmos medos de forma maiúscula repetidos até à exaustão e em todo o tipo de sotaques. São eles os verdadeiros instaladores do medo. São os que batem à porta e anunciam à dona de casa a instalação do medo. Acabam por se esquecer que o medo se desenvolve e que à oferta do cardápio oficial se juntam outros, como o medo de mãe.

Existe então um perigo que espreita o sistema, os que nada têm a perder acabam por se libertar do medo. Como nos libertámos do medo do Deus castigador. “Deus não soube acompanhar a mudança dos tempos”, como explica o bem falante Carlos. Deus foi mais um que não soube sair da sua zona de conforto. O medo de já não termos um Deus de quem ter medo.

A instalação do medo é um processo e já o estamos a viver. Ele precisa da nossa adesão e “é uma categoria”. Para o nosso bem e pelo futuro dos que já não têm futuro. Afinal, fomos nós que pedimos tempos neomedievais. A bem da nação.

Nota: evitei usar reticências neste texto, deixei-as no livro.

O Suplente, de Rui Zink

O SuplenteO Suplente by Rui Zink

“Ele fora o suplente com o qual treinara para o jogo verdadeiramente importante.”

Este livro fala-nos da dor da perda. Da dor para a qual não existe um suplente no banco, pronto a entrar para repor o equilíbrio. Este livro não é sobre futebol.

Com um impecável sentido de humor e não menos brilhante sentido de observação, Rui Zink mostra-nos como os portugueses discorrem dobre os fatos fundamentais da sua vida com o recurso a frases feitas. “Um meio caminho andado para a cura”, “fazemos o que podemos e a mais não somos obrigados”, ou “entre marido e mulher não metas a colher.” Como se estas frases fossem um arremedo para a nossa falta de cultura. Uma incultura que nos impede de reflectir ou de nos expressarmos pelas nossas próprias palavras. Ou então, por humildade típica dos simples de espírito que não arriscam uma ideia, preferindo o efeito garantido de uma frase gasta.

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